E se minha mãe não me ama?


É maio, mês das mães e muitos se alegram em comemorar esta data. É um tempo em que a gratidão e o amor emana de dentro de nós, filhos, e tudo o que queremos é demonstrar tamanho sentimento por aquela pessoa que tanto fez por nós. É tempo de pensar o quanto as mães devem ser honradas e amadas. Agradecemos pela abdicação, dedicação e amor que elas nos ofereceram ao longo da vida. 


Mas, e se, por um acaso, a mãe não ama seus filhos tanto assim? Ou ainda usa seus filhos unicamente como fonte provedora de seus desejos e vontades egoístas e egocêntricas? É chocante pensar nisso, né?  Verdade, mas isso é real. Existem mães que não amam seus filhos com o amor ideal do qual tanto ouvimos falar e por vezes, de fato, vivenciamos.


Estou falando das mães narcisistas. Mãe narcisista é aquela mãe que usa seus filhos como fonte supridora do seus desejos narcísicos. Em outras palavras, são mulheres, que possuem o transtorno de personalidade narcisista e, por sua vez, são mães. Vamos entender um pouco deste transtorno. 


O transtorno de personalidade narcisista -TPN - é basicamente caracterizado por um padrão generalizado de grandiosidade, necessidade de bajulação constante e falta de empatia pelos outros. Um narcisista sente necessidade de ser amado a todo tempo e exige esse amor em forma de servidão, elogios, prontidão em atender suas vontades (ainda que as mais absurdas), se acham superiores, superestimam suas habilidades, inteligência e aparência. Acreditam que são seres especiais e para isso, subestimam as pessoas a sua volta. Costumam diminuir a autoestima das pessoas com quem se relaciona, com o objetivo de torná-las dependentes de sua presença na vida delas

A necessidade de serem admirados pelos outros denuncia sua autoestima extremamente frágil, que os levam a ter uma baixa tolerância a críticas e rejeição, fazendo com que respondam de forma extremamente irritada e violenta, agredindo psicologicamente e, por vezes, fisicamente de seus “dependentes”. 

Quando uma mulher possui TPN e também é mãe, temos um grande problema. Isso porque a criação destes filhos dificilmente será isenta de ser totalmente atingida por este comportamento tão instável. Os filhos de mães narcisistas geralmente sofrem abusos psicológicos graves e, por vezes, agressões físicas. Crescem tendo sua autoestima rebaixada, suas necessidades emocionais extinguidas, fazendo com que sua personalidade se torne confusa e fragilizada. 

               

A experiência clínica tem observado a expressão da agressividade das mães sendo principalmente direcionada para as filhas mulheres. Isto se dá pela autoidentificação inconsciente da mãe com aquela outra mulher (a filha), projetando os sentimentos de raiva e depreciação que na verdade carrega por si mesma.

               

A grande questão é que essas filhas se tornam vítimas de muitos abusos ao longo do seu desenvolvimento, através da negligência de amor, cuidados básicos, proteção e empatia. É comum crescerem ouvindo xingamentos ou frases do tipo: “você é uma vagabunda”, “ninguém vai te amar e nem querer se casar com você”, “tudo o que você faz dá errado”, “você é incapaz de trabalhar” ou “você sempre foi muito fraquinha e doente”. 

             

No livro “Filhas de Mães Narcisistas: Conhecimento Cura” de Michele Engelke, a autora cita 50 características da mãe narcisista. Abaixo, irei listar 8 delas:

  1. Abusa psicologicamente, verbalmente e emocionalmente. Sua filha se torna totalmente dependente da sua aprovação e do seu amor e a mãe, por sua vez, usa essa dependência para manipulação, fazendo-a acreditar que é um ser inferior, dependente e única responsável pela satisfação e bem-estar da mãe pelo resto de sua vida;

  2. É dona de uma verdade inquestionável, é totalmente inflexível a mudança de opinião e trata de suas ideias, ainda que sejam as mais absurdas, como verdade absoluta e imutável. Não existe espaço para diálogo e qualquer questionamento se torna uma crise. As verdades por ela ditas variam de acordo com suas necessidades de manipulação;

  3. Sua identidade é totalmente fragilizada e baseada no outro. É comum que seu comportamento, suas roupas, modo de falar, sejam copiados de referências aleatórias ou até mesmo da própria filha. Em geral, são bastante superficiais quanto as opiniões a respeito de beleza e  status social, por exemplo;

  4. São extremamente fáceis de serem ofendidas e magoadas. Necessitam de aprovação e elogios em todo tempo e quando não o recebem, interpretam como humilhação, rejeição e desprezo;

  5. Não apresentam qualquer sentimento de empatia pelo outro;

  6. Nunca admitem ter causado o mal a quem quer que seja, por isso, quase nunca pede desculpas por algo, ao menos que tenha interesse em algo;

  7. Mentem descaradamente com a finalidade de se manterem no centro das atenções e conseguirem o que querem, seja se proteger, se auto preservar ou para se esquivar de responsabilidades;

  8. Tem inveja de todos que alcançam algo do qual acredita ser o topo da admiração, como beleza, dinheiro e popularidade. É comum invejarem as conquistas da própria filha, aproveitando para diminuí-las e apreciá-las;

               

Mas não se engane! Essas mães não aparecem de forma tão clara para os demais membros do seu meio familiar ou social. Elas costumam passar para os parentes e amigos quão maravilhosa e esforçada é como mãe e o quão ingratos são seus filhos por terem dificuldades de relacionamento com ela e a julgarem mal. 

               

Em geral, filhos de mães narcisistas acabam por se tornarem adultos inseguros, antissociais, dependentes, sem sonhos e perspectivas para o futuro e até mesmo desenvolvem psicopatologias como depressão, síndrome do pânico, transtornos alimentares, entre outros.

               

Em uma sociedade onde a mãe é colocada como um ser divino, não há espaço para se falar daqueles que sofrem intensos abusos de suas genitoras, tornando-se um grupo de pessoas oprimidas, subjugadas e muitas vezes desacreditadas pelos parentes e amigos próximos, o que aumenta sua sensação de isolamento. É preciso acolhimento a dor destes filhos e menos romantização das relações familiares, reconhecendo que, a respeito da dor do outro, somente ele sabe. 


Referências

AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, Fifth Edition (DSM-V). Arlington, VA: American Psychiatric Association, 2013.

Michelle Engelke. Filhas de Mães Narcisistas: O conhecimento cura. 2017

Elisabeth Badinter. Um amor conquistado: O Mito do amor materno. Editora Nova Fronteira. Rio de Janeiro, 1985.




Texto por psicóloga Hellen Carolina Martins Castro

Cofundadora do Instituto Construindo Saúde

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