O racismo mata;a alma

Atualizado: Jul 24


Engana-se quem acha que o racismo assassina só corpo. Engana-se quem ouve sobre o genocídio negro e diz: “aí está o racismo”. O racismo mata bem antes de matar o corpo.  Primeiro mata a autoestima da menina do cabelo duro, o qual o pente branco não penteia.

Daí ele mata a beleza da preta que cresceu ouvindo falarem que ela era feia. Ele mata o menino que, quando pequeno, foi confundido com o pedinte, mesmo sendo só um menino, suado e sujo de tanto brincar de bola ou correr atrás de uma pipa. 

Ele mata quando os motoristas sobem os vidros dos carros na recusa de olhar com empatia para a criança, suja, no semáforo. Ou quando se ouve o “cleck” de mais uma porta trancada e retrancada, e que deixa explícito o “aqui não”. Está aí um exemplo do racismo vivido na estrutura social da qual vivemos.

O racismo mata os sonhos daqueles que ouvem o tempo todo que são menores, inferiores e que nunca chegarão lá. Afinal, sua cor não lhe favorece para a travessia para o lado de lá. 

Certa vez, sentada em um ônibus na grande cidade de São Paulo, uma mulher puxou assunto comigo e, conversa vai, conversa vem, falou afirmativamente que eu era faxineira. Espantou-se quando eu, sorrindo, disse que era psicóloga e pesquisadora. Está aí o racismo, querendo me mostrar mais uma vez “onde deveria ser o meu lugar”. Digo mais uma vez porque ele está sempre tentando levar pessoas pretas para este lugar.

Já me chamaram de pedinte, já me chamaram de feia, já riram do meu cabelo. Não me esqueço de uma vez quando outras crianças brancas me culparam de coisas as quais eu não havia feito e deixaram bem claro que era porque eu era a negrinha do transporte escolar. “A culpa é desta negrinha”, disse o menino branco para a motorista, da qual chamávamos de tia. E a “tia”, também branca, quieta, não disse nada. 

Restou a minha mãe, preta, brigar por mim, uma criança de 7 anos que mal entendia o ódio das crianças brancas por ela.  

Sabe o que o racismo faz com o preto? Mata-o todos os dias. Mata seus sonhos, mata suas perspectivas, mata suas oportunidades, mata sua alma. Quando você branco ameniza a dor do racismo ou chama de vitimismo, esta verdade acaba por aniquilá-lo também.  

Vão matando silenciosamente a alma aos poucos, antes dos corpos; talvez para que, quando os corpos pretos caiam no chão, os que ainda estão de pé se importem menos. Mas mal sabem que quanto mais pisam, mais pressão se forma e a resistência vem a galope. E não vem sozinha, somos muitos e não vamos em silêncio.

Às vezes, antes de morrerem de corpo, os pretos que ainda circulam já morreram de alma há muito tempo.

Baseado na história da Psicóloga Hellen Carolina Martins Castro


Texto da psicóloga Hellen Carolina Martins Castro

Cofundadora do Instituto Construindo Saúde

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