Quando o cotidiano é atropelado por um desastre.


A pandemia do COVID-19 tem afetado nossa sociedade de maneira desastrosa. Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS) um desastre é definido como situação na qual há uma profunda ruptura no funcionamento de uma sociedade, podendo envolver perdas humanas, materiais, econômicas ou ambientais. O desastre está fora do que conhecemos e lidar com o desconhecido nunca é simples ou fácil.

Vivemos um momento que a vida de todos mudou, há novas preocupações, novas rotinas, tocar pessoas ou coisas virou um perigo e um beijo se transformou em possibilidade de risco. Todo o cotidiano que se conhecia não é mais o mesmo e entramos em processo de luto. Não por uma pessoa em si, mas pela vida que se levava e que foi virada de ponta-cabeça.

Muitos estudiosos sobre o luto falam das diferentes posições pelas quais transitamos quando estamos vivendo esse processo e algumas delas nos ajudam a pensar a situação que estamos vivendo com a pandemia. Abaixo vamos nos dedicar um pouco a cada uma.

Negação: Como o nome sugere, essa posição nega que a situação existe, apesar de todos os indícios e fatos comprovados. A negação faz com que continuemos agindo como se nada estivesse acontecendo e pode nos colocar (e colocar outros) em situações de risco. Por exemplo, nos encontrarmos pessoalmente com outras pessoas e abraçarmos elas. É importante dizer que o contrário da negação não precisa ser acompanhar as novas informações o tempo todo ou falar sobre isso constantemente. Uma alternativa para a negação é conseguir reconhecer a importância do que está acontecendo, conseguir se planejar e se prevenir.

Raiva: É muito difícil ter raiva de um vírus, contudo, ter raiva e ficar irritado com aqueles que nos rodeiam é muito fácil e por vezes fazemos isso sem perceber ou desejar. Quando estamos inseguros e com medo é comum que a irritação se apresente, às vezes sem motivo, às vezes nos menores motivos possíveis. Sair de cena, tomar um banho, respirar, meditar, conversar com outra pessoa, são ações que podem ajudar no momento em que a raiva aparece. Além disso, é importante lembrar que a raiva representa uma força interna, conseguir perceber que ela está deslocada e sendo descontada em alguém sem justificativa possibilita pensar nas outras formas que se gostaria de usar essa força.

Desespero: essa posição não é descrita por entre os estágios do luto, mas conseguimos observá-la claramente nos últimos dias. Ela é marcada por ações precipitadas e pode ser muito influenciada pelo excesso de informações. Um exemplo, é de um homem que se medicou porque se ouviu dizer que a um componente teria ação preventiva contra o COVID-19. É importante ter segurança nas fontes das informações e agir quando as recomendações vierem de autoridades confiáveis, caso contrário, o risco e os danos podem ser ainda maiores.

Barganha/Negociação: Nós negociamos o tempo todo, fazemos concessões para nós mesmo nos mais diferentes contextos.

 “Se eu for à academia hoje, não tem problema comer um brigadeiro”,

 “Se eu praticar exercícios todos os dias, eu não vou ficar doente”,

“Se eu estiver de luva e de máscara, eu posso relaxar, pois estou completamente protegido”.

O grande risco da barganha é criarmos para nós mesmo ilusões e situações que nos colocam em risco. Por vezes, quando nos sentimos com medo e sem controle da situação, procuramos soluções rápidas e fáceis para fazer o problema desaparecer. É preciso ter cuidado para que o medo de sentir medo e desamparado não cause mais problemas do que o medo em si.

Depressão: é caracterizado por um momento de reclusão, e vivemos uma sensação de perda, de impotência e desamparo. É também um momento em que se reavalia e repensa as prioridades e o modo como se estava escolhendo fazer as coisas. Ter um momento de pausa e vivenciar os sentimentos que aparecem é fundamental para formular novas maneiras de viver esses momentos

Aceitação/Enfrentamento: essa posição implica o reconhecimento da importância do que está acontecendo e das mudanças que estão envolvidas. Ao aceitarmos uma situação maior que o nosso controle, como é o caso da pandemia, conseguimos nos planejar e contribuir. Ao invés de negar o problema ou procurar uma solução mágica para ele, começamos a procurar quais as contribuições que podemos fazer para tornar o nosso dia-a-dia melhor para nós e para os outros. Não se trata de soluções gigantes, mas sim de pequenas atitudes, como ter uma dose extra de paciência com os outros, ser gentil e cuidadoso consigo e com os que te cercam. Aqui a criatividade não tem limite e os infinitos exemplos de fraternidade e solidariedade durante a pandemia tem aquecido nossos corações e nos lembrados de que há potência mesmo em situações tão difíceis.

Não há uma ordem preestabelecida para que esses momentos apareçam, na realidade transitamos todo o dia por eles. Ao pensarmos sobre essas diferentes posições fazemos a aposta de que quanto mais refletirmos, mais conseguimos escolher em quais posições queremos viver esse momento.

​Referências:

CARNAÚBA, Raquel Arruda; PELIZZA, Cláudia Camargo Arthou Sant’Anna; CUNHA, Samai Alcira. Luto em situações de morte inesperada. 

PSIQUE, v. 1, n. 2, p. 43-51, 2016.

VIEIRA, Michele Cruz. Atuação da psicologia hospitalar na medicina de urgência e emergência. Rev Bras Clin Med, v. 8, n. 6, p. 513-9, 2010.

https://exame.abril.com.br/mundo/apos-fala-de-trump-americano-toma-produto-com-cloroquina-e-morre/

https://g1.globo.com/pr/parana/noticia/2020/03/19/coronavirus-vizinhos-oferecem-ajuda-para-fazer-

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Texto por psicóloga Fernanda Silveira de Souza

Cofundadora do Instituto Construindo Saúde

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